Demanda do transporte público segue abaixo do nível pré-pandemia
A demanda pelo transporte público coletivo continua distante do patamar registrado antes da pandemia, enquanto o uso de motocicletas avança no Brasil.
O alerta foi feito pelo presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional de Transportes Urbanos (NTU), Edmundo Pinheiro, durante o Seminário Nacional da entidade, realizado nesta semana, em São Paulo.
Segundo Pinheiro, em 2025 os brasileiros compraram 2,2 milhões de motocicletas novas, número que superou pela primeira vez as vendas de automóveis. No mesmo período, a demanda do transporte público permaneceu em 77,5% do nível anterior à pandemia.
“Ela não voltou”, afirmou o dirigente ao apresentar um diagnóstico sobre a crise de demanda enfrentada pelo transporte coletivo.
Para Pinheiro, a migração do ônibus para a motocicleta não deve ser analisada apenas como uma mudança individual de meio de transporte. “Quando a Maria troca o ônibus pela moto, não é só o transporte público que perde um passageiro. É a cidade que perde”, afirmou.
Cinco números explicam por que a curva ainda não virou
Na apresentação, o presidente do Conselho Diretor da NTU apontou cinco indicadores que, segundo ele, ajudam a explicar a dificuldade de recuperação do transporte coletivo.
“Cinco números explicam porque a curva ainda não virou”, disse Pinheiro, antes de apresentar os dados: queda de 3,7% nas viagens desde 2005; demanda 22% abaixo do período anterior à pandemia; frota nova estagnada em 10 mil veículos por ano; idade média dos veículos de 6,4 anos, com envelhecimento de 1,77 ano na última década; e custo de R$ 11,05 por quilômetro.
De acordo com ele, o custo por quilômetro teve aumento real de 23,5% em cinco anos. O resultado é uma sequência que pressiona o sistema: custo maior, aumento da tarifa, queda da demanda e aumento novamente do custo por passageiro.
“Isso é uma espiral. Uma espiral não se corrige com o esforço de gestão. Corrige-se mudando a forma de financiar”, afirmou.
Setor defende financiamento que não pese sobre a tarifa
A proposta apresentada pela NTU parte da avaliação de que a melhoria do serviço não pode ser financiada exclusivamente pela tarifa paga pelo usuário.
Pinheiro defendeu um modelo com financiamento permanente e previsível, argumentando que o transporte coletivo produz benefícios que ultrapassam o passageiro que utiliza o ônibus, como redução de congestionamentos, poluição e acidentes.
“Se todos beneficiam da mobilidade urbana, a conta dessa infraestrutura, que está à disposição de todos, não pode ficar concentrada apenas no passageiro. A saída não é cobrar mais. É repartir melhor”, afirmou.
O dirigente também destacou que cerca de um quarto do custo do sistema está relacionado às gratuidades e que o financiamento dessas políticas não deveria recair exclusivamente sobre a tarifa.
Marco Legal abre nova janela para o setor
A discussão ocorre na esteira da aprovação do Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, instituído pela Lei nº 15.432, de 13 de junho de 2026, originada do Projeto de Lei nº 3.278/2021.
A legislação estabelece novas diretrizes para planejamento, regulação, financiamento e prestação dos serviços de transporte público coletivo urbano.
Durante o seminário, Pinheiro classificou o Marco Legal como uma conquista construída pelo Congresso Nacional e pela sociedade brasileira. Para ele, a nova legislação organiza o sistema, mas o desafio agora é assegurar recursos para sua operação.
“O Marco Legal organizou o sistema. Mas agora precisamos financiá-lo”, afirmou.
A avaliação da NTU é que investimentos em renovação e ampliação da frota precisam vir acompanhados de uma fonte estável de custeio. “Investimentos sem custeio compram ônibus, que o sistema depois não consegue operar”, disse Pinheiro.
NTU projeta 50 mil novos ônibus em quatro anos
Entre as metas apresentadas pela entidade está a ampliação da frota em 50 mil ônibus nos próximos quatro anos, com redução da idade média dos veículos e avanço da transição energética.
Pinheiro observou que o país atualmente está em um patamar de aproximadamente 10 mil ônibus urbanos adquiridos por ano e defendeu uma política permanente de financiamento para elevar esse número.
“É isso que o financiamento correto compra”, afirmou.
A proposta apresentada no seminário também envolve mecanismos para ampliar o acesso ao transporte, incluindo a defesa de um modelo de vale-transporte social voltado a famílias inscritas no Cadastro Único.
ANTP defende união de entidades para pressionar por recursos
A necessidade de uma articulação ampla do setor foi reforçada por Carlos Henrique Ribeiro, da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).
Segundo ele, entidades do setor discutem há anos diferentes fontes de financiamento, mas faltava uma estratégia conjunta e um canal concreto de interlocução com governos e Congresso Nacional.
“Nunca tivemos uma interlocução concreta como temos agora”, afirmou.
Ribeiro destacou que a mobilização coletiva do setor já contribuiu para conquistas como recursos destinados ao transporte de idosos e o próprio Marco Legal. Para ele, a existência de um objetivo comum pode facilitar a construção de uma política permanente de financiamento.
“Nós temos, estrategicamente, um governo que ouve, executivos que ouvem, o Parlamento que ouve e um produto concreto para apresentar”, disse.
Aliança nacional deve reunir mais de duas dezenas de entidades
Edmundo Pinheiro confirmou durante o painel que entidades nacionais ligadas ao transporte público estão articulando a criação de uma aliança para defender pautas comuns do setor.
Segundo ele, a iniciativa ainda não havia sido formalmente lançada, mas vinha sendo discutida desde o encontro realizado pela entidade no ano anterior. A expectativa era reunir mais de duas dezenas de organizações nacionais.
“A aliança ainda não foi lançada. Ela vem se reunindo desde o último encontro da NTU o ano passado”, explicou.
Pinheiro afirmou que a intenção é construir consenso em torno de temas considerados fundamentais para transformar o transporte público no país, identificando problemas estruturais que possam afetar diferentes projetos e políticas de mobilidade.
“O que está em jogo aqui não é o ônibus, é a cidade”
Ao defender uma mudança no modelo de financiamento, o presidente da NTU procurou ampliar o debate para além da situação econômica das empresas de transporte.
“O que está em jogo aqui não é o ônibus, é a cidade”, afirmou.
A avaliação apresentada no seminário é que um transporte coletivo mais acessível e de maior qualidade pode ampliar o acesso da população ao trabalho, à educação e à saúde, além de produzir efeitos sobre congestionamentos, poluição, acidentes e atividade econômica.
Para o setor, a recuperação da demanda depende, portanto, de uma combinação entre melhoria do serviço, renovação da frota e uma estrutura de financiamento capaz de reduzir a pressão sobre a tarifa.
No encerramento de sua apresentação, Pinheiro resumiu a proposta em uma ideia: “Transporte para todos”.
O post Transporte público perde passageiros e setor cobra nova forma de financiamento: “A curva ainda não virou” foi publicado primeiro em Diário de Goiás.
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