O cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro ‘A Cabeça do Eleitor’, uma bíblia dos marqueteiros, avaliou que a ascensão meteórica de Augusto Cury (Avante) – que saltou de 2% para 11% nas intenções de voto em algumas pesquisas – está relacionada sobretudo ao voto antissistema.
Almeida considera que este fenômeno guarda relação com o que aconteceu com a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018. Na ocasião, Bolsonaro, que nunca havia disputado eleição presidencial, despontou como um combatente da elite política que se polarizava há anos entre PSDB e PT.
“É um fenômeno que aconteceu em 2018, com Bolsonaro. É um voto em quem nunca foi candidato a presidente.
De um modo geral, há uma interação de diversos fatores. Você tem sempre um noticiário muito negativo da política e dos políticos.
Em 2018, Bolsonaro foi votado porque nunca foi candidato a presidente. Não era um político do sistema.
Ele era contra o PSDB, o PT, o MDB, que governava com Michel Temer. Bolsonaro foi a figura antissistema naquela eleição”, compara.
O analista diz que Cury se difere das outras candidaturas oposicionistas, como de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), pelo fato de jamais ter disputado eleição.
“O Caiado tem toda a trajetória construída na política. O Zema veio desse fenômeno antipolítica, quando foi eleito pela primeira vez em 2018, mas depois se tornou parte do sistema e não é visto como uma opção a Lula e Flávio”, diz.
Sobrariam então Cury e Renan Santos (Missão) como opções ao eleitor antissistema. Neste caso, avalia Almeida, o candidato do Avante destaca-se pelo discurso na campanha.
“Aí tem elementos aleatórios. Vai no debate, se destaca, fala algo que viraliza.
São eleitores que votam na oposição, mas que querem alguém que não seja do sistema, como é Flávio, como são Caiado e Zema”, frisa.
Até onde vai a onda
As pesquisas que dão Cury com 11% ainda mostram uma longa distância, de 20 pontos percentuais, para Flávio Bolsonaro (PL), que hoje é o principal desafiante do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Almeida considera que as chances de que ele esteja no segundo turno são pequenas, mas não podem ser ignoradas.
“Ninguém sabe, a rigor. Diante de tudo que acontece no Brasil, na última década, é uma pergunta muito difícil de responder.
Tem gente que diz que ele vai crescer, passar Flávio e disputar o segundo turno com Lula. Eu tenho uma visão mais conservadora, que nem sempre é a certa.
Tendo a achar que ele não tem chance de ultrapassar Flávio Bolsonaro. Mas pode acontecer, posso errar novamente”, analisa.
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