O uso de medicamentos como Ozempic e Monjaro para emagrecimento tem crescido rapidamente, mas especialistas alertam que os riscos de um tratamento inadequado podem ser graves. Um consenso europeu publicado no The Lancet Diabetes & Endocrinology reforça que perder peso não deve ser a única meta e destaca a importância de acompanhamento médico, nutricional e psicológico.
Ao Jornal Opção, o médico Guilherme Borges, cardiologista, nutrólogo e especialista em clínica médica, comentou, neste domingo, 19, os principais pontos de um consenso europeu sobre o uso de análogos do GLP-1, como Ozempic e Monjaro, no tratamento da obesidade. O médico da Clínica Nutricor Guilherme Borges | Foto: Acervo Pessoal
“Nós vivemos uma epidemia de obesidade, e no Brasil não é diferente.
Nos últimos 20 anos, a gente mais que dobrou o número de obesos. Teve um aumento de 118% no país. Hoje, a gente sabe que 25% da população tem o diagnóstico de obesidade e 60% da população está acima do peso”, disse.
Ele explicou que os análogos do GLP-1 imitam a ação de hormônios que trazem saciedade e reduzem a ingestão de alimentos. “Nós temos visto que, muitas vezes, o tratamento é feito de forma errada, ou as pessoas usam a medicação sem acompanhamento de equipe especializada”, afirmou.
“Isso pode acabar trazendo problemas para as pessoas.
Pensando nisso, saiu recentemente um consenso europeu de como acompanhar melhor esses pacientes. Esse documento visa trazer um alerta de riscos à saúde decorrentes de tratamento inadequado”, completou. A importância da terapia nutricional
O médico apontou que o primeiro passo é avaliar a terapia nutricional. “Não adianta só comer menos e emagrecer. Não é só o peso da balança.
A gente tem todo um contexto social, histórico da pessoa, de saúde, que tem que ser avaliado. Esse paciente que está usando remédio para perder peso, ele está comendo direito? Na maioria dos casos, não. O remédio limita a quantidade de comida, a pessoa se sente saciada e acaba comendo poucos nutrientes”, explicou.
Sobre os pontos de atenção, Borges citou hidratação, proteínas, fibras, vitaminas e minerais. “A hidratação é muito importante, porque muitas vezes o remédio tira a fome, mas também tira a sede, e as pessoas ingerem pouco líquido e acabam ficando desidratadas.
As proteínas também são um ponto interessante, porque,as pessoas não conseguem comer muita proteína por serem mais volumosas”, disse.
“Então, ficar de olho nas proteínas, na hidratação, no consumo de fibras é muito importante. É preciso consumir mais que 25 gramas de fibras por dia. Vitaminas e minerais também devem ser monitorizados: vitamina D, vitamina C, complexo B, ferro, zinco, ácido fólico”, completou.
Riscos da perda de peso acelerada e efeitos colaterais
Ele alertou para o risco da perda de peso rápida demais. “Quando essa pessoa ingere aproximadamente 800 até 1000 calorias no dia, que é muito abaixo do recomendado, ela acaba perdendo peso demais e, junto com o peso, vai desnutrir, desidratar e pode criar outro problema para a saúde dela”, disse.
Sobre os efeitos colaterais, o especialista afirmou que os mais comuns são gastrointestinais: constipação, vômito e náuseas. “Isso nós manejamos com a parte nutricional, aumentando a hidratação, diminuindo a gordura da dieta, ajustando a dose do remédio”, explicou.
“Muitas vezes o paciente está com a dose do remédio muito alta e começa a passar mal demais.
Às vezes, é preciso manejar com remédios para vômito ou constipação. Nós vemos muita queda de cabelo também. O paciente come poucos nutrientes e o folículo capilar fica frágil. Outra preocupação é a predisposição à formação de cálculos na vesícula, que aumenta o risco de doenças graves como pancreatite”, acrescentou.
Monitoramento da composição corporal e prevenção da sarcopenia
Ele apontou para a importância de acompanhar a composição corporal. “A pessoa também perde massa muscular junto com a gordura. Essa perda causa sarcopenia. Além do volume, o músculo pode ficar fraco, com perda de função.
Isso a gente previne com exercícios resistidos, que são os da academia, de levantamento de peso, e com ajuste de proteína na dieta”, disse.
“Hoje, a gente fala que o paciente em uso das canetas deve ter uma dieta com proteínas em torno de 1 a 1.5 gramas por quilo por dia, distribuídos ao longo da alimentação.
É importante fazer exames de composição corporal, como a bioimpedância, para ver massa muscular, massa óssea, líquidos e evolução da perda de gordura”, completou. Impacto psicológico e relação com a comida
O aspecto psicológico também foi destacado. “Muitos pacientes com obesidade têm transtornos alimentares. É preciso ver se esse paciente precisa de atendimento psicológico ou medicação do psiquiatra.
Muitas vezes, as pessoas têm um vínculo emocional com a comida”, explicou. Quando emagrecem com o uso das canetas, esse vínculo se rompe e a pessoa pode até entrar em depressão ou ter uma crise de identidade. Por isso é tão importante ter uma equipe multidisciplinar com médico, nutricionista, preparador físico e psicólogo.
O tratamento não é só na balança, não é só a perda de peso, afirmou.
“Hoje nós falamos muito de padrões alimentares, que estão muito ligados com a neurociência, de como a pessoa se relaciona com o alimento. Algumas pessoas têm um padrão mais compulsivo com relação à comida ou mesmo um vínculo emocional de ter que comer certo tipo de alimento para se sentir bem.
E, hoje, a gente sabe que essas canetas para perda de peso agem direto no cérebro diminuindo essa compulsão pelo alimento”, disse. Benefícios cardiometabólicos e uso contínuo
O médico também alertou para a dependência emocional da medicação. “A pessoa pode desenvolver uma dependência emocional do remédio, de só conseguir estar no peso ideal usando a medicação.
Então, hoje nós vemos que o remédio não é o fim, ele é uma ferramenta importante que a gente tem à disposição. Mas, junto com a medicação, tem que vir todo um tratamento multidisciplinar para que, depois, a pessoa possa caminhar sem ela. Sobre quando a gente tira o remédio ou não: esse é um desafio hoje em dia na prática clínica”, apontou.
Ele destacou os efeitos cardiometabólicos dos medicamentos. “A medicação tem efeitos muito importantes: melhora o perfil de colesterol, melhora o perfil de glicemia, trata diabetes e melhora o perfil de pressão também.
Os remédios diminuem o risco de doenças cardiovasculares, de AVC e de infarto”, explicou.
“São medicações que alguns pacientes necessitam de uso contínuo, porque, quando a gente para o remédio, além do aumento do reganho de peso, temos também a perda dos benefícios cardiovasculares e a pessoa volta a ter risco aumentado de problemas de coração”, afirmou.
O desafio do desmame e o futuro dos tratamentos
Sobre a retirada da droga, o médico explicou que tem que ser muito individualizada. “Tem que ser discutida com o paciente, para ver o custo-benefício do remédio. Tem que ser uma decisão compartilhada com o médico, com a história clínica de cada pessoa, para saber se vai retirar, diminuir a dose ou trocar o remédio.
A tendência hoje e para o futuro é que se tire a caneta e passe para o comprimido oral”, disse. Estão em desenvolvimento várias medicações em comprimido. Futuramente, muito provavelmente, o paciente que precisa do remédio contínuo vai passar a tomar um comprimido, como toma para o colesterol, para a pressão ou diabetes, também vai tomar um comprimido para o excesso de peso, acrescentou.
Sinais para ajuste de dose e os riscos da automedicação
Sobre quais sinais clínicos a pessoa deve observar para solicitar a diminuição ou aumento de dose, o médico apontou alguns sinais que o paciente deve observar. “Nunca, em hipótese alguma, faça esse tipo de tratamento por conta própria.
Muitas pessoas têm conseguido as canetas de forma ilegal e começam um tratamento sem saber dose, sem exames de laboratório, sem nutricionista, sem academia. Isso é muito arriscado”, alertou.
“Existem alguns sinais para pensar em diminuir a medicação: uma pessoa emagreceu demais, perdeu massa muscular, precisa rever o tratamento.
A pessoa está tendo muito efeito colateral, vomitando demais, intestino preso demais, cabelo caindo demais. Isso sempre com médico e nutricionista juntos. Muitas vezes não precisa tirar o remédio, conseguimos manejar diminuindo a dose, ajustando a dieta, deixando remédio de náusea ou para o intestino”, completou.
O fenômeno do reganho de peso (efeito sanfona)
Ao ser questionado sobre o reganho de peso de pessoas que usam esse tipo de medicamento, o especialista explicou que já tem bastante estudo clínico que evidencia essa relação. “É impressionante que, em torno de 70% a 80% das pessoas que param a medicação, acabam entrando numa curva de reganho de peso.
Nos próximos um, dois anos, elas acabam recuperando todo o peso que se perdeu. Só conseguimos retirar a medicação se a pessoa aderiu muito bem à prática diária de exercício físico e a um planejamento alimentar”, disse. É muito importante um acompanhamento longitudinal. Estabelecemos um peso de alerta. Se a pessoa recupera 20% do peso que perdeu, precisamos intervir novamente.
A tendência do corpo é voltar ao peso máximo que a pessoa já teve, isso é um mecanismo de defesa. O corpo aumenta a fome, diminui a saciedade e a pessoa ingere mais calorias para recuperar o peso máximo, acrescentou. Cuidados especiais com pacientes idosos
O especialista lembrou que pessoas mais velhas são mais vulneráveis. “Os idosos mais frágeis precisam de atenção rigorosa na questão da massa muscular.
O primeiro passo é mensurar essa massa muscular no consultório. Exames como DEXA ou bioimpedância avaliam o volume muscular. Outra questão importante é a função muscular. Mais que o volume, hoje a gente vê que a função do músculo é mais importante”, disse.
“Nós temos alguns exames para se fazer no consultório. Tem um exame simples que é de sentar e levantar.
A pessoa tem que sentar e levantar por cinco vezes num período de 15 segundos, e há uma tabela de acordo com a idade para classificar a musculatura como funcional”, apontou.
“Tem também o exame de pressão palmar, chamado handgrip, que avalia se a função muscular está evoluindo bem.
Então, é muito importante a musculação, exercícios resistidos, junto com uma dieta com proteínas do tanto certo, de 1 a 1.5 g por quilo por dia, e essa mensuração do volume muscular e da função muscular no consultório”, completou.
Obesidade como questão de saúde pública
O médico reforçou o alerta sobre a obesidade e a necessidade de acompanhamento profissional no uso de medicamentos para emagrecimento. “O alerta mais importante é que o excesso de tecido de gordura no corpo é uma questão de saúde pública. Se as pessoas que vão ler a matéria estão acima do peso, é um ponto muito importante elas procurarem ajuda.
Procurar ajuda de médico, procurar ajuda de nutricionista. É um problema complexo para ser tratado sozinho, e a grande maioria das pessoas não consegue tratar isso sozinho”, afirmou. Ele destacou que o acompanhamento é essencial para resultados satisfatórios. “Precisa de um acompanhamento médico e nutricional para que se tenha um resultado satisfatório. Então, nunca fazer isso sozinho.
A obesidade é uma epidemia no mundo todo, e no Brasil não é diferente, os dados são crescentes. Precisamos intervir, mas de uma forma séria, com ciência, e procurar sempre um especialista para manejar isso”, concluiu.
Leia também:
JiveMauá assume 80% da Rota Verde em Goiás e já mira licitação da Rota do Pequi
Após ofensiva dos EUA, Irã promete resposta “inesquecível”
Brasil tenta incluir dois ícones do ciclo da borracha na lista de Patrimônios Mundiais da Unesco: veja quais são
O post Uso indiscriminado de Ozempic pode causar dependência emocional e novos problemas de saúde, alerta médico apareceu primeiro em Jornal Opção.
Acompanhe mais notícias em nosso site.
Uso indiscriminado de Ozempic pode causar dependência emocional e novos problemas de saúde, alerta médico
O uso de medicamentos como Ozempic e Monjaro para emagrecimento tem crescido rapidamente, mas especialistas alertam que os riscos de um tratamento inadequado podem ser graves. Um consenso...