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Turismo rural em Goiás: entenda como a atividade fortalece a economia e o campo

O turismo está em constante transformação para atender às novas exigências dos viajantes e à crescente competitividade do mercado. Nesse cenário, a segmentação da atividade turística tem ganhado...

O turismo está em constante transformação para atender às novas exigências dos viajantes e à crescente competitividade do mercado. Nesse cenário, a segmentação da atividade turística tem ganhado força, com a oferta de experiências cada vez mais especializadas. Entre elas, o turismo rural se destaca como um dos segmentos de maior potencial de crescimento no Brasil e, especialmente, em Goiás.
Mais do que uma alternativa de lazer, o turismo rural representa uma importante estratégia de desenvolvimento econômico e social. A atividade integra hospedagem, gastronomia, lazer, bem-estar e contato com a natureza, além de valorizar a cultura, os costumes e os modos de vida das comunidades rurais.
O crescimento desse segmento é impulsionado por dois fatores principais: a necessidade dos produtores rurais em diversificar as fontes de renda e agregar valor à produção, e o interesse crescente da população urbana em vivenciar experiências autênticas no campo, em contato com a natureza, com os animais e com as tradições do interior.
Com grande diversidade de paisagens naturais, propriedades rurais e manifestações culturais, Goiás reúne condições favoráveis para consolidar o turismo rural como uma das principais modalidades do Estado.
Turismo no assentamento Serra das Araras, em Mineiros | Foto: Acervo pessoal
Goiás reúne destinos e experiências para diferentes perfis de visitantes
O Estado oferece opções que vão desde fazendas históricas e pousadas rurais até assentamentos da agricultura familiar, proporcionando experiências ligadas à produção agropecuária, à gastronomia regional e ao ecoturismo.
Entre os principais destinos estão:
• Pirenópolis: conhecida pelas cachoeiras e pelas fazendas históricas que oferecem cavalgadas, produção artesanal de queijos e cachaças, além da vivência da rotina no campo;
• Chapada dos Veadeiros: especialmente em Alto Paraíso de Goiás, onde ranchos e pousadas unem conforto, natureza e experiências rurais;
• Corumbá de Goiás e Alexânia: regiões que se destacam pelo turismo ligado à produção de vinhos e cachaças, permitindo aos visitantes acompanhar o processo de fabricação e participar de degustações;
• Assentamentos da reforma agrária, em municípios como Mineiros e Rio Verde, onde iniciativas incentivadas pelo Incra oferecem contato com a agricultura familiar, além de atrações como cachoeiras, balneários e manifestações da cultura caipira.
Atividades aproximam visitantes da vida no campo
As propriedades rurais oferecem uma ampla variedade de experiências, entre elas:
• participação na rotina da fazenda, como ordenha, alimentação dos animais e colheita de frutas e hortaliças;
• degustação da gastronomia típica e visitas a queijarias, alambiques e agroindústrias artesanais;
• atividades de lazer e aventura, como cavalgadas, pescarias, trilhas e banhos em rios e cachoeiras;
• visitas a vinícolas, com conhecimento sobre o processo de produção e degustação de vinhos.
Turismo no Vão do Moleque, em Cavalcante | Foto: Acervo pessoal
Desenvolvimento econômico e valorização cultural
Além de proporcionar experiências autênticas aos visitantes, o turismo rural movimenta diversos setores da economia, gera emprego e renda, fortalece a agricultura familiar e amplia a circulação de recursos nas comunidades do interior.
A atividade também contribui para a preservação do patrimônio natural e cultural, valoriza os produtos feitos no campo e reforça a identidade das populações rurais, consolidando-se como uma importante ferramenta de desenvolvimento sustentável em Goiás. A reportagem ouviu empreendedores de diferentes municípios que mostram que o potencial turístico do Estado vai além das paisagens naturais.
A combinação entre natureza, hospitalidade, gastronomia e cultura regional tem criado roteiros e atraído visitantes de Goiás e de outros estados brasileiros. Assentamento em Rio Verde aposta em ecoparque para ampliar turismo rural
O empreendedor Valdeci Júnior encontrou no turismo rural uma oportunidade de transformar a realidade da família no assentamento Vale do Cedro, em Rio Verde.
O projeto, que começou como um pesque-pague, está passando por uma grande reformulação e será reaberto como Fama Eco Parque, com novas estruturas de lazer, hospedagem e eventos. Fama Eco Parque, em Rio Verde | Foto: Acervo pessoal
Segundo Valdeci, o empreendimento nasceu há cerca de cinco anos e já recebeu investimentos próprios de aproximadamente R$ 1,35 milhão.
Após avaliar a necessidade de ampliar a rentabilidade e melhorar a experiência dos visitantes, a família decidiu transformar o espaço em um complexo turístico.
“Nós vimos que tínhamos que melhorar, até por conta da rentabilidade, para ter um controle maior sobre o nosso investimento. Então resolvemos fechar e reabrir como ecoparque, com piscina adulta, infantil, chalés e pista de laço”, explica.
O novo projeto prevê investimento entre R$ 5,3 milhões e R$ 5,5 milhões, totalmente com recursos próprios. A estrutura terá 12 chalés, trilhas, áreas de lazer, espaço para churrasco, auditório para eventos empresariais, além de uma pista destinada a provas de laço e três tambores.
“Tudo foi feito com os nossos braços. Não tivemos financiamento.
Fomos investindo aos poucos, com capital próprio, durante esses cinco anos de caminhada”, afirma o empreendedor. Turismo no assentamento Vale do Cedro, em Rio Verde | Foto: Acervo pessoal
O empreendimento também representa uma nova fonte de renda para uma família que vive há duas décadas no assentamento.
Valdeci conta que cresceu na região, estudou, trabalhou em outros setores e decidiu retornar para investir na propriedade. A gente chegou lá pequeno, saiu, estudou, voltou e investiu. Hoje o turismo é também uma fonte de renda para a família, destaca. Antes da reformulação, o espaço já recebia visitantes de Goiás e de outros estados, principalmente de cidades localizadas em um raio de até 150 quilômetros.
A expectativa é ampliar esse público com a nova estrutura.
“Sítio Ebenézer“ aposta no turismo de base comunitária
No município de Mineiros, no assentamento Formiguinha, a família de Priscila Almeida encontrou no turismo rural uma forma de fortalecer a sucessão familiar e gerar renda envolvendo toda a comunidade.
O Sítio Ebenézer Turismo Rural de Experiência e Base Comunitária nasceu com a proposta de oferecer aos visitantes contato com a natureza, cultura local e produtos da agricultura familiar. Sítio Ebenézer Turismo Rural de Experiência e Base Comunitária | Foto: Acervo pessoal
Priscila retornou ao campo em 2020, após concluir a faculdade de Direito, para continuar a história da família na propriedade.
Segundo ela, o turismo surgiu como uma oportunidade de renda e como uma forma de envolver os vizinhos. Eu não via sentido em trabalhar sem incluir a comunidade porque aprendi há muito tempo a viver em comunidade. Então resolvemos trabalhar com turismo de base comunitária, relata.
A propriedade possui camping estruturado, com banheiros, água quente, área de descanso, espaço para fogueira, balanços e um chalé para até seis pessoas. Além disso, os visitantes encontram trilhas, piscinas naturais, paisagens da Serra dos Caiapós e contato com a biodiversidade da região. Muitas coisas não produzimos mais no sítio. Compramos dos vizinhos para servir aos clientes que vêm aqui.
Assim fazemos a renda girar dentro da comunidade, explica. Turistas no Sítio Ebenézer Turismo Rural de Experiência | Foto: Acervo pessoal
O público do empreendimento vem principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília e outras regiões do país. A propriedade recebe visitantes mediante agendamento, já que a família também participa de outras atividades ligadas à agricultura familiar.
Para Priscila, o turismo passou a ser uma importante complementação financeira junto com outras atividades desenvolvidas pela família, como a agroindústria de panificação rural e a produção agrícola.
“Na agricultura familiar a renda é muito plural: vem da padaria, do turismo, da produção e da criação de animais. Tudo agrega à renda da família”, afirma.
Pousada “Beijinho de Ouro” valoriza cultura, natureza e saberes tradicionais
No município de Cavalcante, na região do Vão do Moleque, o empreendedor Maurício Ferreira da Silva transformou a própria história de vida e os conhecimentos da comunidade em uma experiência de turismo rural.
À frente da Pousada Beijinho de Ouro, ele recebe visitantes interessados em conhecer a natureza, a cultura local, a gastronomia e os modos tradicionais de produção. A iniciativa surgiu a partir da relação de Maurício com a própria terra onde nasceu e cresceu. Depois de passar um período fora em busca de aprendizado e novas experiências, ele percebeu que o maior potencial estava no lugar onde sempre viveu.
A chegada de visitantes interessados nas belezas naturais da região, especialmente cachoeiras e trilhas, despertou a ideia de transformar a propriedade em um destino turístico.
“Eu vi que o meu resultado era aqui, na terra, no Vão do Moleque, onde fui criado. As pessoas vinham me visitar e falavam: ‘que lugar maravilhoso! Não queremos ficar longe daqui’”, conta.
Maurício Ferreira da Silva mostra as riquezas naturais do Vão do Moleque | Foto: Acervo pessoal
Com o crescimento do turismo na região, Maurício passou a oferecer aos visitantes uma experiência de imersão no modo de vida do campo.
Ele criou uma programação de vivências que inclui atividades como produção de farinha, açúcar mascavo, rapadura, melado, construção com técnicas tradicionais, plantio de sementes crioulas e contato com a natureza.
“Eu inventei uma vivência para tirar um pouco as pessoas do foco da internet e mostrar que a força da natureza também traz qualidade, ensino, alimento e conhecimento”, explica.
Além das atividades culturais, a pousada oferece hospedagem, café da manhã, almoço e refeições preparadas com produtos regionais. Um dos destaques é o beiju, alimento feito a partir da mandioca, que se tornou símbolo da experiência gastronômica oferecida aos visitantes. Eu acredito no beiju porque é um alimento muito delicioso.
Você pode misturar com paçoca de gergelim, amendoim, baru, banana e outros sabores, destaca. O empreendimento recebe turistas principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia e Brasília. Segundo Maurício, o turismo também movimenta a economia da comunidade, pois a demanda faz com que ele compre produtos dos vizinhos e gere trabalho para outras pessoas. Tem ajudado muito financeiramente.
Eu compro as coisas dos vizinhos, incentivo eles a plantarem o que eu estou fornecendo. Já tem cozinheiras trabalhando comigo.
Tem gerado emprego e renda para muita gente, afirma.
“Acoqueiral Queijaria” une produção artesanal de queijo e turismo de experiência
Entre os municípios de Cocalzinho de Goiás e Corumbá de Goiás, a empreendedora Juliana Moraes encontrou no turismo rural uma forma de ampliar a experiência dos visitantes com a produção artesanal de queijos.
A Acoqueiral Queijaria, primeira do ramo do Estado de Goiás com o Selo Arte, passou a receber turistas interessados em conhecer todo o processo, desde a produção do leite até o produto final. Experiência gastronômica na Acoqueiral Queijaria | Foto: Acervo pessoal
O empreendimento começou com a fabricação de queijos artesanais e, posteriormente, incorporou a visitação turística.
A proposta é mostrar aos visitantes a rotina da propriedade, os animais, as pastagens, a ordenha e a produção dos alimentos.
“Nós começamos com o queijo e, depois, partimos para o turismo, que é outra paixão. Abrimos a visitação para mostrar desde os animais, a pastagem, a ordenha até oferecer um café colonial com nossos produtos”, explica Juliana.
Durante a visita, os turistas conhecem a história da produção e participam de uma experiência gastronômica com quitandas, geleias, mel e os próprios queijos produzidos na propriedade. O público principal são famílias, especialmente aquelas que buscam apresentar às crianças o contato com a vida rural. As crianças ficam encantadas. Você toma o café aqui e os bezerrinhos estão do lado.
Elas conseguem ver coisas que muitas vezes nunca tiveram contato, relata. A propriedade recebe visitantes de diferentes estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Tocantins, além de Goiás e do Distrito Federal. Segundo Juliana, o turismo rural tem apresentado crescimento e existe um projeto de expansão com hospedagem, restaurante e produção de vinhos.
Juliana Moraes: “a gente começou com o queijo e depois eu parti para o turismo” | Foto: Acervo pessoal
“A ideia é ficar completo, com queijos e vinhos. Estamos aos pés da Serra dos Pirineus, já temos 10 mil pés de uva e um projeto para crescer cada vez mais”, afirma.
O empreendimento ainda não recebeu financiamento específico para a implantação do turismo, mas conta com apoio técnico do Sebrae para divulgação e participação em eventos. Para Juliana, a abertura da propriedade trouxe novas possibilidades de negócio. Comecei empreendendo mesmo, fazendo o que era possível, e está dando certo. Não me arrependo de ter aberto para visitação, destaca.
Sítio “O Recanto do Vale” transforma belezas naturais em atrativo turístico
No assentamento Serra das Araras, em Mineiros, o empreendedor Alexandre Cruz transformou a propriedade da família em um espaço de turismo rural baseado na natureza, na história da reforma agrária e na valorização dos produtos regionais.
O empreendimento começou em 2014, quando sua mãe passou a receber visitantes interessados nas paisagens da região. Turistas no assentamento Serra das Araras, em Mineiros | Foto: Acervo pessoal
Localizado na região conhecida como “Pinga Fogo”, o sítio possui belezas naturais da Serra dos Caiapós, com destaque para piscinas naturais, trilhas e áreas de contemplação.
A atividade começou de forma simples, com visitantes trazidos por guias que conheceram a região. Chegou um guia de Minas para explorar a região e ele trazia os turistas. Minha mãe fazia almoço e vendia os produtos dela, como queijo e doce, conta Alexandre sobre como tudo teve início.
Formado em Biologia, Alexandre deixou um emprego na cidade e retornou para a propriedade durante a pandemia, passando a investir na estrutura e no desenvolvimento do turismo. Hoje, ele atua como guia local e acompanha visitantes pelas trilhas e atrativos naturais.
O empreendimento oferece experiências ligadas ao meio ambiente, camping, alimentação e produtos do extrativismo regional, como baru, mangaba e farinha de jatobá. Turistas conetemplam a Serra das Araras | Foto: Acervo pessoal
“Nós trabalhamos com uma gama de coisas para gerar renda. Não é só o turismo em si, mas também os produtos da região e os eventos que participamos”, explica.
A hospedagem ainda está em fase de estruturação, mas o espaço já recebe visitantes que buscam contato com a natureza e histórias da comunidade assentada. Segundo Alexandre, muitos turistas demonstram curiosidade sobre a trajetória das famílias da reforma agrária.
“As pessoas gostam de ouvir a história de como foi chegar aqui, como é viver no assentamento. Essa história também faz parte da experiência”, afirma.
Os visitantes vêm principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. Para Alexandre, o turismo já se tornou uma importante fonte de renda para a família. Hoje eu vivo só disso aqui e não me arrependo. O turismo ajuda muito e mostra que a região tem um potencial enorme, destaca.
Gastronomia e turismo rural em Cocalzinho de Goiás
Em Cocalzinho de Goiás, a empreendedora Adriana Carvalho transformou a produção de vinhos da Vinícola Pirineus em uma experiência de turismo rural que une enoturismo, gastronomia e cultura do campo.
O projeto começou a partir da curiosidade dos visitantes sobre o cultivo de uvas viníferas em Goiás e ganhou força a partir de 2014, quando a propriedade passou a receber turistas interessados em conhecer os parreirais e o processo de produção.
Turistas fazem degustação de vinhos e queijos dentro dos parrerais | Foto: Acervo pessoal
“As pessoas queriam conhecer a plantação de uva, saber como era a produção em Goiás e como era possível cultivar uvas viníferas aqui. Essa curiosidade nos levou a procurar uma forma de receber essas pessoas na propriedade”, explica Adriana.
Aproveitando sua formação em gastronomia, ela criou o almoço harmonizado, com pratos preparados para combinar com os vinhos produzidos no local. Com o passar dos anos, a atividade foi ampliada e passou a oferecer uma experiência completa, que envolve a visita aos parreirais, degustação de vinhos, gastronomia e contato com a história da propriedade rural.
O espaço preserva características tradicionais, como uma casa construída com adobe, aroeira e telhas artesanais, além de oferecer produtos como doces, geleias, sucos e quitandas produzidos com ingredientes da própria fazenda.
“Hoje eu falo que somos uma experiência rural, porque oferecemos o enoturismo, o turismo gastronômico e mantemos a ruralidade, com as características culturais e locais da região”, afirma.
A propriedade recebe principalmente visitantes de Brasília, Goiânia e Anápolis, além de turistas de São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados. Casa antiga da Vinícola Pirineus | Foto: Acervo pessoal
Segundo Adriana, o turismo rural tem crescido em Goiás e se tornado uma alternativa para manter propriedades no campo.
A empreendedora destaca que investimentos em infraestrutura e sustentabilidade foram importantes para ampliar o negócio, incluindo financiamentos da GoiásFomento para melhorias e instalação de energia solar.
“Muitas propriedades rurais têm aberto as portas para receber as pessoas, contar um pouco da história da fazenda e ajudar financeiramente a propriedade rural a se manter”, destaca Adriana, ressaltando que o turismo ajuda a valorizar a produção local, preservar tradições e criar fontes de renda no meio rural.
Produtora aposta no mirtilo e une cultivo ao turismo
A produtora Marlene Mendes, de Planaltina de Goiás, apostou no cultivo de mirtilo em 2022, logo após a pandemia, e transformou uma pequena plantação em um empreendimento que reúne produção, processamento, turismo rural e comercialização de mudas. Atualmente, a propriedade conta com cerca de 10 mil plantas e continua em expansão.
Produção de mirtilo em Planaltina de Goiás | Foto: Acervo pessoal
Segundo Marlene, a decisão de investir na cultura surgiu após uma longa pesquisa e um planejamento detalhado. Começamos em 2022, logo após a pandemia, quando vimos a necessidade de empreender. Compramos 2 mil mudas antes mesmo de encontrar a propriedade. Hoje reinvestimos todo o lucro no negócio e já chegamos a 10 mil plantas.
Além da produção do fruto in natura, a propriedade comercializa mudas, frutas congeladas e produtos derivados, como geleias, chás e gelados.
“Acredito que somos a única produtora da região que trabalha toda a cadeia, desde a produção das mudas até o produto final. Estamos descobrindo a enorme versatilidade e o alto valor agregado que o mirtilo oferece”, destaca.
Além da produção, a propriedade investe no turismo rural com um passeio guiado durante a época da colheita. A experiência inclui café da manhã, visita ao viveiro, caminhada pelo pomar e colheita dos frutos diretamente da planta.
Marlene Mendes: “nosso empreendimento reúne produção, processamento, turismo rural e comercialização de mudas | Foto: Acervo pessoal
“As famílias colhem o mirtilo no pé, experimentam a fruta e conhecem todo o processo de produção. É uma experiência que aproxima as crianças da natureza e tem feito muito sucesso”, afirma.
Garimpo transforma história familiar em experiência turística em Cristalina
O produtor Gabriel Pereira de Sousa, do Garimpo Pedra de Fé, em Cristalina, encontrou no turismo rural uma forma de preservar a história da família e apresentar aos visitantes a tradição dos antigos garimpeiros.
A iniciativa começou a ser estruturada em 2022, após uma parceria entre o município, o Sebrae e empreendedores locais para desenvolver uma rota turística. Segundo Gabriel, o passeio permite que os visitantes conheçam a história da mineração de cristais, participando de todas as etapas da experiência. “As pessoas vão, conhecem a história dos garimpeiros, da minha família, e vivenciam essa experiência na prática.
Elas colocam capacete, galocha, pegam peneira ou picarete e vão para o garimpo”, explica.
Turistas procuram seus próprios cristais | Foto: Acervo pessoal
Durante a visita, os turistas fazem uma trilha onde aprendem sobre a formação geológica de Cristalina, o processo de extração dos cristais e como era o trabalho realizado pelos antigos garimpeiros. “Nós mostramos como era a extração nas décadas de 40, 50 e 60, explica sobre os túneis, as ferramentas usadas e como chegamos até os dias atuais.
Não é apenas visitar, é participar do processo”, afirma. O empreendimento também integra outras experiências, como a visita ao processo de lapidação e a possibilidade de transformar o cristal encontrado em uma joia personalizada. Gabriel destaca que o público surpreendeu pela diversidade. “Nós esperávamos pessoas acima de 30 anos, mas hoje recebemos muitas crianças e adolescentes.
Elas gostam de vestir a roupa de garimpeiro, pegar a ferramenta e participar de tudo”, pontua. O passeio tem duração média de três horas e inclui equipamentos de segurança, material para coleta dos cristais e lanche. O valor cobrado atualmente é de R$ 130 por pessoa. Segundo Gabriel, o diferencial está no contato familiar proporcionado aos visitantes. “O turismo rural traz esse diálogo com as pessoas.
Quem procura esse tipo de experiência quer ver como as coisas acontecem de verdade, quer conhecer a história e ter contato com quem vive aquilo.”
Durante a visita, os turistas fazem uma trilha onde aprendem sobre a formação geológica de Cristalina | Foto: Acervo pessoal
Fazenda em Rio Verde recebe visitantes interessados em produção sustentável
Na Fazenda Mata do Lobo, em Rio Verde, a produtora Maria Vitória desenvolve uma proposta de turismo rural voltada ao conhecimento da agricultura sustentável.
A propriedade trabalha com produção de soja, milho e café em sistema agroflorestal, atraindo visitantes interessados em conhecer novas formas de produção agrícola.
Segundo Maria Vitória, as visitas começaram antes mesmo da estruturação de um projeto turístico municipal, motivadas pelo interesse de estudantes, produtores e pesquisadores. “Nós já recebíamos algumas pessoas na fazenda interessadas em conhecer, principalmente, o sistema agroflorestal e o manejo regenerativo que fazemos nas áreas de soja e milho”, conta.
Turismo rural voltada ao conhecimento da agricultura sustentável | Foto: Acervo pessoal
A experiência oferecida aos visitantes é voltada principalmente para mostrar o funcionamento do sistema agroflorestal e o cultivo do café. “A visita começa com a história da fazenda, depois vamos para a agrofloresta, explicamos como escolhemos as espécies, como funciona o manejo do café e, dependendo da época, mostramos também o processamento pós-colheita”, explica.
O roteiro termina com uma degustação de café especial, momento em que os visitantes conhecem detalhes sobre torra e preparo da bebida. A fazenda já recebeu visitantes de vários estados brasileiros e também estrangeiros. “Já recebemos pessoas da Alemanha, Estados Unidos, França, Chile e México. Também recebemos muitos estudantes do Instituto Federal de Goiás (IFG) e da Universidade Federal de Jataí (UFJ)”, relata.
Apesar do crescimento da procura, Maria Vitória afirma que o turismo ainda não representa uma parcela significativa da renda da propriedade. “O foco é muito mais divulgar esse jeito de produzir e mostrar às pessoas como funciona.
O retorno financeiro ainda não é relevante, mas existe um grande interesse em conhecer o nosso sistema.”
A propriedade trabalha com produção de soja, milho e café em sistema agroflorestal | Foto: Acervo pessoal
“Rancho de Anas”, em Silvânia, aposta no turismo rural e equestre
Em Silvânia, o produtor Hélio Fábio do Nascimento Guerra prepara o Rancho de Anas para receber visitantes interessados em experiências ligadas à natureza, cultura rural e cavalos.
O projeto ainda está em fase de implantação, mas já nasce com diferentes propostas, incluindo turismo rural, turismo equestre e atividades relacionadas à produção agropecuária. Hélio conta que a ideia surgiu após participar de cursos de turismo rural pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Goiás). “Foi nesses cursos que despertou essa ideia de complementar o meu projeto com o turismo rural.
Fizemos um projeto audacioso e estamos trabalhando para concluir as estruturas necessárias para começar a receber as pessoas”, afirma.
Segundo ele, o turismo rural acompanha uma mudança no comportamento das pessoas, principalmente das grandes cidades, que buscam contato com ambientes naturais e experiências mais simples. “As pessoas estão procurando se afastar dos grandes centros aos finais de semana e feriados para ter um alívio mental, conhecer lugares com natureza, comida feita no fogão de lenha, queijo caseiro e produtos tradicionais.”
Com cerca de 45 anos de experiência com cavalos, Hélio pretende oferecer atividades envolvendo cavalgadas e interação entre pessoas e animais | Foto: Acervo pessoal
Outro destaque do empreendimento será o turismo equestre.
Com cerca de 45 anos de experiência com cavalos, Hélio pretende oferecer atividades envolvendo cavalgadas e interação entre pessoas e animais. “O cavalo é um parceiro.
Trabalhamos essa relação entre homem e cavalo, mostrando respeito, técnica e convivência.”
Para o produtor, o turismo rural também movimenta toda a economia dos pequenos municípios. “Quando o turista chega, toda a cadeia ganha: farmácia, supermercado, lojas, hotéis.
O turismo movimenta a cidade inteira”, afirma.
“Fazenda Trio Aliança” apresenta produção de leite aos visitantes em Rio Verde
Na Fazenda Trio Aliança, em Rio Verde, o produtor Nivaldo Gonçalves de Oliveira abriu as portas da propriedade para mostrar aos visitantes o funcionamento da produção leiteira.
A fazenda trabalha com gado da raça Holandesa e passou a receber turistas, estudantes e produtores interessados em conhecer o sistema produtivo. Segundo Nivaldo, a aproximação com visitantes começou por meio de dias de campo e visitas técnicas. “Ao longo dos anos eu já recebia pessoas para troca de informações, alunos de faculdade e produtores.
Depois, com o trabalho do Sebrae, aprendemos como receber essas pessoas de maneira mais profissional”, explica. As visitas apresentam todas as etapas da produção, desde o nascimento dos animais até a produção do leite. “Mostramos o manejo diário, o desenvolvimento dos animais, a genética, a alimentação, o cuidado sanitário e todo o processo para formar um animal saudável e produtivo”, afirma.
Nivaldo Gonçalves de Oliveira abriu as portas da propriedade para mostrar aos visitantes o funcionamento da produção leiteira | Foto: Acervo pessoal
O roteiro também aborda práticas sustentáveis adotadas na propriedade, como reaproveitamento de resíduos, produção de adubo orgânico e uso racional da água. “O dejeto da vaca vira adubo, a água é reutilizada e nada é jogado na natureza de maneira aleatória.
A ideia é mostrar que existe uma produção responsável e sustentável”, destaca. Atualmente, a maior parte dos visitantes é formada por escolas, universidades e produtores, com média de duas visitas mensais. Para Nivaldo, o turismo rural ajuda a aproximar o consumidor da realidade do campo. “Muita coisa que a sociedade urbana pensa sobre a produção rural é desmistificada quando ela ver de perto como realmente funciona.
É uma oportunidade de mostrar a realidade sem maquiagem.”
Aconchego Rural fortalece o turismo no campo em Goiás
O Programa Aconchego Rural, desenvolvido pela Emater Goiás em parceria com a Goiás Turismo, tem impulsionado o turismo rural como estratégia de desenvolvimento econômico e social no Estado.
A iniciativa prepara agricultores familiares para receber visitantes em suas propriedades, agregando valor à produção, preservando a cultura local e criando oportunidades de geração de emprego e renda nas comunidades rurais. O programa atua em quatro frentes principais: assistência técnica, capacitação dos produtores, estruturação das propriedades e promoção dos roteiros turísticos.
As ações incluem diagnóstico das propriedades, planejamento das atividades, treinamentos em hospitalidade, gastronomia, empreendedorismo, marketing, turismo de experiência e gestão, além de orientação para regularização da atividade e acompanhamento técnico contínuo. Após a capacitação, os participantes também podem acessar recursos do Cartão Crédito Social para investir em melhorias estruturais.
O Aconchego Rural contempla diferentes modalidades de turismo, como agroturismo, turismo de experiência, turismo gastronômico, hospedagem rural, turismo pedagógico, observação da fauna e da flora, turismo de aventura, oficinas de artesanato, degustação de produtos locais e eventos culturais.
O programa está presente em todas as macrorregiões de Goiás, aproveitando roteiros consolidados, como Chapada dos Veadeiros, Terra Ronca, Vale do Araguaia e Região Agroecológica. Entre os municípios que já desenvolvem ações estão Guarani de Goiás, Cavalcante, São Domingos, Aruanã, Terezinha de Goiás, Nova Roma, Valparaíso de Goiás, Acreúna, Paraúna, Santa Helena, Rio Verde, Jataí e Perolândia.
Desde seu lançamento, em 2024, o programa já capacitou mais de 220 famílias rurais e ampliou sua atuação para todas as regiões do Estado. Em Cavalcante, cerca de 40 produtores foram preparados para receber turistas, enquanto na região de São Domingos e Terra Ronca aproximadamente 25 famílias participaram das capacitações.
Além de diversificar a renda da agricultura familiar, o Aconchego Rural busca incentivar a sucessão familiar no campo, estimular o empreendedorismo, fortalecer a gastronomia regional, preservar tradições culturais, promover a conservação ambiental e estruturar novos roteiros turísticos.
A iniciativa vai além e se consolida como uma política pública voltada ao desenvolvimento rural sustentável, integrando assistência técnica, valorização cultural e turismo de experiência para transformar propriedades rurais em novos destinos turísticos de Goiás.
Mapa do turismo em Goiás | Foto: Emater-GO
Turismo rural impulsiona renda em assentamentos
O turismo rural tem se consolidado como uma alternativa de geração de renda para famílias assentadas da reforma agrária, desde que seja desenvolvido de forma planejada, respeitando a legislação, a destinação das parcelas e as normas ambientais.
Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a atividade fortalece iniciativas como agroecologia, economia solidária, artesanato e comercialização de produtos da agricultura familiar, além de aproximar a sociedade da realidade dos assentamentos, incentivar a permanência dos jovens no campo e contribuir para a sucessão rural.
Para incentivar esses empreendimentos, o Incra oferece linhas de crédito, como o Fomento (R$ 16 mil), Fomento Mulher e Fomento Jovem (R$ 8 mil cada), que são destinados a investimentos produtivos.
Outro instrumento é o Programa Terra Sol, que apoia projetos coletivos de agroindustrialização, comercialização, agroecologia, turismo rural e artesanato, financiando ações como identidade visual, capacitações e planos de negócios.
Em 2026, o programa conta com orçamento nacional de R$ 4 milhões e busca fortalecer a organização das comunidades, agregar valor à produção da agricultura familiar e promover o desenvolvimento sustentável nos assentamentos.
Assentamento Serra das Araras, em Mineiros | Foto: Acervo pessoal
Crédito e incentivo fortalecem o turismo rural em Goiás
O Governo de Goiás tem ampliado os incentivos ao turismo rural por meio de financiamento, qualificação e apoio ao empreendedorismo no campo.
A GoiásFomento disponibiliza R$ 16 milhões em linhas de crédito para empreendedores do setor, com acesso condicionado ao cadastro regular no Cadastur, ligado ao Ministério do Turismo.
As atividades contempladas seguem a Lei Geral do Turismo
Em abril deste ano, durante a Tecnoshow, em Rio Verde, o governador Daniel Vilela (MDB) anunciou R$ 473 mil em investimentos voltados à qualificação e ao acesso ao crédito para produtores rurais, dentro do Programa Aconchego Rural.
A iniciativa beneficiou produtores de Acreúna, Jataí, Paraúna, Petrolândia, Rio Verde e Santa Helena, com o objetivo de diversificar a economia no campo, gerar renda e valorizar a cultura, a gastronomia, o artesanato e as belezas naturais das comunidades rurais.
A primeira-dama e coordenadora do Goiás Social, Iara Netto Vilela, destacou que as ações contribuem para a criação e expansão de empreendimentos familiares e para o fortalecimento da economia regional. O presidente da Emater, Rafael Gouveia, ressaltou que o turismo rural vive um período de crescimento no Brasil e destacou o potencial de Goiás para o segmento.
Segundo ele, o governo estadual também investe em inovação, mecanização e assistência técnica para tornar as propriedades mais competitivas, consolidando o turismo rural como uma alternativa de desenvolvimento econômico e valorização das famílias do campo.
Sebrae destaca expansão do turismo de experiência no campo
Para Rita Queiroz, analista técnica do Sebrae Goiás Regional Centro-Leste, o crescimento do turismo rural está relacionado à mudança no comportamento dos visitantes, que passaram a buscar experiências mais autênticas e momentos de conexão com a natureza.
“Hoje, percebemos esse movimento do turista que sai mais da região urbana, procurando contato com a natureza e a experiência de estar imerso naquela vivência.
Não é apenas uma questão de visitar um lugar, mas de participar daquela experiência”, explica. Segundo ela, o avanço da produção de uvas, vinhos, sucos, uvas de mesa e queijos artesanais em Goiás contribuiu para fortalecer o segmento. “Além desses produtos, foi preciso trazer a experiência para o cliente.
Muitos produtores passaram também a receber visitantes nas propriedades para mostrar o processo de produção e criar uma vivência diferenciada”, afirma.
Rita Queiroz: “A pessoa busca sair da rotina, descansar, ter contato com a natureza e viver momentos mais intimistas” | Foto: Acervo pessoal
Rita destaca que a Serra dos Pirineus é uma das regiões com maior potencial, reunindo atrativos naturais, ecoturismo e empreendimento ligados ao enoturismo. “Hoje, nós temos produtores de vinho, queijos artesanais e propriedades que trabalham com experiências gastronômicas.
A pessoa busca sair da rotina, descansar, ter contato com a natureza e viver momentos mais intimistas”, diz.
A analista ressalta ainda o papel do Sebrae no apoio à estruturação de roteiros turísticos, como a Rota dos Pirineus, desenvolvida com municípios como Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cocalzinho. “O Sebrae ajudou desde o estudo, desenvolvimento das experiências, criação da marca e materiais de divulgação para transformar esse potencial em um produto turístico organizado”, explica.
Turismo rural amplia oportunidades para produtores e valoriza cultura goiana
O turismólogo Luciano Guimarães Soares avalia que o turismo rural deixou de ser apenas uma atividade ligada à produção agrícola e passou a envolver natureza, cultura, gastronomia e tradições das comunidades.
“O turismo rural não se resume mais à atividade econômica agrícola.
Ele incorpora outras dimensões, como a natureza, as famílias rurais, as paisagens, o patrimônio cultural e as tradições”, afirma. Segundo Luciano, Goiás possui grande potencial para esse tipo de turismo por reunir diversos atrativos naturais. “Não temos praias de mar, mas temos praias de água doce, ecoturismo, parques nacionais, águas quentes e uma natureza muito rica.
O turista busca justamente esse contato com o ambiente rural”, destaca. Ele explica que a procura tem aumentado principalmente entre famílias que desejam fugir da rotina das grandes cidades. “As pessoas estão buscando paz, tranquilidade, comida caseira, experimentar coisas novas e escapar do cotidiano.
Muitas querem uma propriedade rural onde possam mostrar aos filhos como é a vida no campo, como se tira leite, como se produz um queijo ou como funciona uma fazenda”, relata.
Luciano Guimarães em Nova Roma, a beira do Rio Paranã, na Região Turística de Terra Ronca | Foto: Acervo pessoal
O turismólogo cita atividades que fortalecem o segmento em Goiás, como trilhas, gastronomia, colheita de uvas, visitas a parreirais, contato com animais, passeios a cavalo, pesca e turismo de base comunitária. “Temos exemplos como a Fazenda Jabuticabal, em Hidrolândia, comunidades tradicionais, como os Kalunga, e diversas propriedades que agregam valor ao que já produzem”, afirma.
Para Luciano, o turismo rural representa uma oportunidade de geração de renda sem substituir as atividades tradicionais do produtor. “É uma forma de gerar renda extra e valorizar a cultura local para quem produz. Para o turista, é um refúgio para desacelerar, respirar e escapar do ritmo acelerado das cidades”, conclui.
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