Os quatro planos de governo registrados na Justiça Eleitoral até o momento pelos candidatos ao Palácio das Esmeraldas estruturam propostas distintas para o Estado a partir de 2027.
Embora saúde, educação, segurança, geração de emprego, infraestrutura e desenvolvimento regional apareçam nos documentos, há diferenças relevantes sobre como essas políticas devem ser executadas e qual deve ser o papel do poder público.
Os documentos analisados estão disponíveis no DivulgaCandContas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e são os de Daniel Vilela, da coligação “Pra Goiás Seguir em Frente”; Wilder Morais, do PL; Luís César Bueno, da coligação Goiás Pode Mais; e Luciana Amorim, da Unidade Popular.
Marconi Perillo não é incluído porque a chapa da federação PSDB-Cidadania ainda não apresentou plano de governo.
Plano a plano
No plano de governo de Daniel Vilela, a principal característica é a proposta de continuidade com ampliação e inovação. O documento afirma que o próximo ciclo deve preservar o que considera avanços da gestão 2019-2026, mas aprofundar investimentos em desenvolvimento humano, tecnologia, economia, infraestrutura, segurança e governança.
O plano de governo de Wilder Morais também parte da ideia de preservar resultados considerados positivos, mas concentra sua proposta em problemas mais diretamente relacionados ao cotidiano, como espera na saúde, renda, moradia, creches, mobilidade e infraestrutura. Seu plano é organizado em sete prioridades e 12 programas.
Luís César Bueno apresenta um programa estruturado em desenvolvimento regional, infraestrutura, segurança, educação integral, mobilidade, saúde, meio ambiente e turismo. A proposta tem forte ênfase em planejamento territorial, financiamento público, indicadores e metas.
Já Luciana Amorim apresenta o programa mais explicitamente voltado à mudança do modelo econômico e à ampliação da atuação direta do Estado, com uma plataforma que se define como socialista e que coloca trabalhadores, movimentos sociais, reforma urbana, direitos sociais e reestatização de serviços no centro das propostas.
Abaixo segue detalhamento de propostas
Daniel Vilela propõe continuidade, inovação e expansão de políticas públicas
O plano de Daniel Vilela apresenta seis grandes eixos: desenvolvimento humano e bem-estar; conhecimento, tecnologia e inovação; desenvolvimento econômico e competitividade; infraestrutura, território e sustentabilidade; segurança pública; e capacidade institucional e governança.
A educação integral aparece como uma das prioridades, com expansão dos Centros de Ensino em Período Integral e conexão com tecnologias emergentes e transformações do mercado de trabalho.
Na área de ciência e inovação, o plano prevê maior integração entre universidades, centros de pesquisa, empresas e governo, além de políticas de inteligência artificial e internacionalização de talentos.
Na saúde, o documento aponta como desafio a redução do tempo de espera por consultas, exames e cirurgias, além da ampliação do acesso à moradia e da redução das desigualdades.
O plano também vincula desenvolvimento econômico a competitividade, infraestrutura e inovação, mantendo a responsabilidade fiscal como uma das bases do projeto. A lógica geral é de continuidade da trajetória iniciada em 2019, com novas políticas para tecnologia, conhecimento e desenvolvimento.
Wilder Morais concentra o plano em saúde, renda, família e presença regional
O plano de Wilder Morais, do PL, define sete prioridades: “Minha Vez, Saúde com Data”; “Segurança sem Retrocesso”; “Trabalho que Melhora a Renda”; “Família com Tempo para Viver”; “Goiás Mais Simples”; “Infraestrutura que Funciona”; e “Governo nas Dez Regiões”.
A saúde ganha destaque com a proposta de permitir que o usuário saiba sua posição na fila, a previsão de atendimento e o próximo passo.
O programa também prevê utilização da capacidade instalada de hospitais filantrópicos e privados para atendimento pelo SUS estadual e entrega de medicamentos de uso contínuo em casa para pessoas com dificuldade de deslocamento.
Na área econômica, a proposta combina qualificação profissional, primeira oportunidade de trabalho, pequenos negócios, agro, indústria, mineração, comércio e serviços. O plano também trata de moradia, creches, transporte, saneamento, água, energia e conectividade.
A marca central do documento é a ideia de preservar segurança, aprendizagem e capacidade de investimento, ao mesmo tempo em que concentra esforços nos problemas apontados como ainda não resolvidos, especialmente saúde, renda, moradia, mobilidade e infraestrutura.
Luís César Bueno propõe desenvolvimento regional e Tarifa Zero progressiva
O plano de Luís César Bueno apresenta uma abordagem fortemente territorial. Goiás é dividido em oito zonas econômicas, cada uma com vocações e prioridades próprias, envolvendo infraestrutura, qualificação profissional, investimentos, turismo, segurança e desenvolvimento produtivo.
Entre as propostas mais específicas está a Tarifa Zero progressiva, inicialmente priorizada para a Região Metropolitana de Goiânia e, mediante cooperação, para o Entorno do Distrito Federal. O plano estabelece que a gratuidade deve ser acompanhada de financiamento permanente, capacidade operacional e indicadores de qualidade.
Na educação, Bueno propõe ampliar as escolas de tempo integral para uma faixa indicativa de 350 a 370 unidades ao final do mandato, com aproximadamente 90 a 110 novas unidades ou conversões, condicionadas à infraestrutura, pessoal e capacidade fiscal.
Na saúde, o plano propõe regionalização, redução de filas, valorização dos servidores e fortalecimento da IQUEGO. Há ainda uma proposta de reestatização gradual da gestão hospitalar e fortalecimento da produção pública de medicamentos.
O meio ambiente também ocupa espaço próprio, com propostas para resíduos sólidos, combate a incêndios, proteção de águas e mananciais, biodiversidade, agricultura de baixo carbono, redução de agrotóxicos e proteção de comunidades afetadas pela mineração.
Luciana Amorim apresenta projeto mais voltado à reestatização e reforma social
O plano de Luciana Amorim, da Unidade Popular, parte de um diagnóstico diferente dos demais. O documento apresenta-se como contraponto às gestões anteriores e defende um programa socialista para Goiás, baseado no chamado “poder popular”.
Na área de emprego e renda, a proposta prevê frentes emergenciais de trabalho em bairros pobres e no interior, auxílio emergencial permanente até a oferta de emprego, reestatização da CELG, interrupção da privatização da Saneago, estímulo à economia solidária, passe livre para desempregados e criação de um salário mínimo goiano.
No campo, o plano defende agricultura familiar, reforma agrária, regularização de terras, assistência técnica, demarcação de terras indígenas e quilombolas e combate ao trabalho análogo à escravidão.
Para as cidades, propõe investimentos nas periferias e assentamentos precarizados, política habitacional, mobilidade urbana, reestatização dos meios de transporte coletivo e passe livre para estudantes.
Na saúde, o documento defende o fim das organizações sociais na gestão hospitalar, ampliação de maternidades, criação de casas de parto humanizadas e fortalecimento do atendimento relacionado à saúde da mulher.
Saúde aparece nos quatro planos, mas com modelos diferentes
A saúde é um dos pontos de convergência entre os quatro documentos, mas os meios propostos são diferentes.
Daniel Vilela enfatiza redução de filas, ampliação do acesso e desenvolvimento da rede pública, dentro de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento humano.
Wilder Morais concentra-se na transparência das filas, previsão de atendimento e resposta ao usuário, além de mecanismos para ampliar a utilização da rede disponível.
Luís César Bueno propõe regionalização do SUS, redução de filas, valorização dos servidores e fortalecimento da IQUEGO, além da reestatização gradual da gestão hospitalar.
Luciana Amorim vai além e propõe explicitamente o fim das organizações sociais na saúde estadual, com maior presença direta do Estado na gestão dos serviços.
Educação também aproxima os candidatos, mas com prioridades distintas
A educação integral é uma coincidência clara entre os planos de Daniel Vilela e Luís César Bueno. O primeiro propõe ampliar a educação em tempo integral conectada à tecnologia, protagonismo juvenil e mercado de trabalho; o segundo estabelece metas quantitativas para expansão dos CEPIs e integração com formação profissional.
Wilder Morais também coloca a educação entre as áreas que devem preservar os resultados considerados positivos, mas direciona a proposta para uma visão mais abrangente de família, trabalho, renda e oportunidades.
Na Unidade Popular, a educação aparece vinculada à valorização dos trabalhadores, à inclusão e às políticas sociais, dentro de uma proposta mais ampla de transformação das estruturas econômicas e sociais.
Transporte revela uma das maiores diferenças entre os programas
A mobilidade é outro tema comum, mas com propostas bastante diferentes.
Luís César Bueno apresenta a Tarifa Zero progressiva como uma das principais políticas do plano, condicionada à existência de financiamento permanente e à melhoria da operação.
A Unidade Popular também propõe ampliação do acesso gratuito ao transporte, incluindo passe livre para estudantes e para pessoas desempregadas, além da reestatização dos meios de transporte coletivo.
Wilder Morais trata transporte dentro de uma agenda mais ampla de mobilidade, infraestrutura e redução do tempo gasto pelas famílias em deslocamentos.
No plano de Daniel Vilela, a mobilidade aparece inserida no eixo de infraestrutura, território e sustentabilidade, integrada a desenvolvimento urbano, infraestrutura e qualidade de vida.
Economia: convergência no desenvolvimento, divergência no papel do Estado
Os quatro documentos tratam de emprego, renda e desenvolvimento econômico, mas partem de concepções diferentes.
Daniel Vilela associa crescimento econômico a competitividade, inovação, conhecimento, tecnologia e responsabilidade fiscal.
Wilder Morais enfatiza o ambiente para quem trabalha e empreende, a qualificação profissional, pequenos negócios, agro, indústria e simplificação dos serviços públicos.
Luís César Bueno aposta na transformação da produção goiana, agregação de valor, desenvolvimento de cadeias produtivas e organização territorial das vocações econômicas.
Já Luciana Amorim propõe maior intervenção direta do Estado, com reestatizações, economia solidária, frentes públicas de trabalho e reforma agrária.
Onde estão as principais coincidências e divergências
Os documentos convergem na presença de saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura, desenvolvimento regional e redução de desigualdades entre as prioridades. A diferença está principalmente no diagnóstico e nos instrumentos escolhidos.
Daniel Vilela e Wilder Morais apresentam planos que partem da ideia de preservar resultados da gestão anterior e avançar sobre problemas ainda existentes. Os dois documentos destacam segurança, capacidade de investimento e educação como áreas nas quais há resultados a preservar.
Luís César Bueno também apresenta propostas de continuidade de políticas existentes em algumas áreas, mas acrescenta mudanças estruturais, como Tarifa Zero progressiva, reestatização gradual da gestão hospitalar e forte planejamento regional.
A Unidade Popular apresenta a maior ruptura em relação aos demais documentos, especialmente ao defender socialismo, reestatização de empresas e serviços, reforma agrária, ampliação de políticas de transferência e garantia de emprego e mudanças no modelo de gestão da saúde e do transporte.
Assim, embora os quatro planos abordem problemas semelhantes — como acesso à saúde, qualidade da educação, emprego, infraestrutura e desigualdades regionais —, os documentos apresentam visões diferentes sobre a intensidade da participação do Estado, o modelo econômico, a gestão dos serviços públicos e a forma de financiar as políticas.
A comparação, portanto, não aponta apenas temas em comum, mas diferentes caminhos propostos pelos candidatos para enfrentar problemas que aparecem, em maior ou menor medida, nos quatro programas.
O post Planos de governo para Goiás: candidatos divergem sobre papel do Estado, economia, saúde e transporte foi publicado primeiro em Diário de Goiás.
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