Quando novembro chega, as escolas costumam ampliar as atividades relacionadas à cultura negra, à história da população afro-brasileira e ao Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.
Mas, para a professora Cristiane Maria Ribeiro, do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), falar sobre educação antirracista não pode ser uma tarefa restrita a um mês do calendário.
A proposta, segundo ela, precisa estar presente durante todo o ano letivo e fazer parte da própria organização da escola. Isso porque o racismo não é um fenômeno que aparece apenas em determinadas datas. Ele pode atravessar diferentes espaços de convivência e também chegar ao ambiente escolar.
“A escola, como sendo o primeiro lugar de socialização desta criança, tem que estar atenta também a esse fenômeno que pode, de certa forma, adentrar nos muros da escola”, explica Cristiane.
Para a professora, uma educação antirracista envolve dois movimentos importantes: combater manifestações de preconceito e, ao mesmo tempo, valorizar a história, a cultura e as contribuições da população negra. Veja a entrevista completa
Desde os primeiros anos
E não é cedo demais para começar. Cristiane destaca que até mesmo crianças pequenas conseguem perceber diferenças, identificar tratamentos distintos e reproduzir estereótipos presentes na sociedade.
Por isso, a educação antirracista deve começar desde a educação infantil, com estratégias adequadas para cada faixa etária.
Na prática, isso pode significar, por exemplo, garantir que crianças tenham contato com imagens positivas e diversas de pessoas negras e ampliar a representação nos materiais e brinquedos utilizados no cotidiano escolar.
“Quando você tem que começar a trabalhar isso? Desde o berçário, desde o berçário”, afirma.
A ideia não é apenas apresentar conteúdos sobre racismo, mas construir desde cedo uma relação mais natural com a diversidade. Para isso, a escola precisa evitar representações estereotipadas e mostrar diferentes formas de existência, cultura e identidade.
História que precisa estar na escola
A discussão também está diretamente relacionada à legislação brasileira. A Lei nº 10.639, de 2003, tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Cinco anos depois, a Lei nº 11.645 ampliou essa determinação para incluir também a história e a cultura dos povos indígenas.
Para Cristiane, as leis representam uma forma de reparação diante de uma história que, durante muito tempo, deixou personagens e contribuições da população negra em segundo plano.
Heróis e heroínas negras, quilombos e diferentes manifestações culturais precisam aparecer como parte da história do Brasil — e não apenas como um conteúdo pontual trabalhado próximo ao Dia da Consciência Negra.
A professora defende que essa presença deve estar distribuída pelos 200 dias letivos e integrada às diferentes áreas do conhecimento.
“É uma obrigação de implementar a história do negro brasileiro. Mas por que implementar a história do negro brasileiro? Porque ele foi apagado da história, da história do Brasil”, afirma.
Educação para todos
Embora muitas vezes seja vista como uma pauta voltada exclusivamente à população negra, a educação antirracista, segundo Cristiane, beneficia toda a sociedade.
Isso porque o trabalho da escola não deve apenas proteger quem sofre o preconceito, mas também educar quem o pratica ou pode vir a reproduzi-lo.
A educação para as relações étnico-raciais ajuda os estudantes a compreenderem a diversidade, reconhecerem situações de discriminação e desenvolverem formas mais respeitosas de convivência.
Para estudantes negros, esse processo também pode contribuir para o reconhecimento da própria identidade e para a construção de uma relação mais positiva com sua história, aparência, cabelo e cultura.
“Ao mesmo tempo, você está educando aquela criança negra a não aceitar os xingamentos, os apelidos, o descrédito com a sua aparência, com o seu cabelo, com a sua cultura”, explica.
Dessa forma, o trabalho ultrapassa o conteúdo de uma disciplina ou de um projeto específico e passa a fazer parte da formação do estudante.
Ainda há desafios
Apesar dos avanços na legislação e na discussão sobre o tema, Cristiane avalia que ainda existe um longo caminho para que a educação antirracista seja efetivamente incorporada às escolas brasileiras.
Para ela, não é possível colocar essa responsabilidade apenas sobre professores e pesquisadores negros. A implementação das políticas deve envolver gestores, governos, instituições de formação de professores e órgãos de pesquisa.
Outro ponto fundamental é a formação dos educadores. Segundo a professora, não basta esperar que o profissional desenvolva sozinho práticas antirracistas.
“O professor não aprende a ser antirracista por osmose. Alguém tem que ensinar ele como é que faz. Alguém tem que apoiar ele de uma forma mais enfática”, afirma.
Nesse cenário, a gestão escolar também tem papel decisivo. Cabe aos gestores criar condições para que diferentes grupos sejam representados, respeitados e tenham participação efetiva no ambiente escolar.
Mais do que uma atividade para novembro, a educação antirracista, portanto, propõe uma mudança na forma de pensar e organizar a escola. É um trabalho contínuo, que começa nos primeiros anos de vida e pode contribuir para formar estudantes mais conscientes sobre diversidade, direitos e convivência.
Para Cristiane, assumir essa responsabilidade é também defender o princípio democrático de que todas as pessoas devem ter o direito de existir, aprender e participar da escola com respeito e igualdade.
SER Goiás na TV
O SER Goiás na TV é um programa educativo diário produzido pela Fundação Sagres, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc-GO), que amplia a experiência da sala de aula por meio da televisão ao integrar comunicação e educação.
O programa aborda o reforço escolar, a recomposição das aprendizagens e os desafios contemporâneos da educação básica, oferecendo conteúdo construtivo, instrucional e orientador para estudantes, famílias e comunidade, com entrevistas, videoaulas e diretrizes pedagógicas alinhadas às políticas educacionais, em consonância com o ODS 4 – Educação de Qualidade, da Organização das Nações Unidas, reafirmando o compromisso com uma aprendizagem inclusiva, equitativa e transformadora.
Todos os dias, uma edição inédita, a partir das 14h, na Demà Sagres TV.
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Fonte: Sagres Online
