Samuel Straioto
Goiânia – A campanha eleitoral começou há poucos dias e, nas ruas de Goiás, a disputa pela atenção do eleitor já ganhou diferentes formatos. Tem caminhada, carreata, reunião, comício, carro de som, bandeira, santinho, adesivo, além das calçadas e canteiros repletos de wind banners para chamar a atenção do público.
Mas a disputa pela memória do eleitor também está no nome e na ponta da língua do candidato, chegando até a urna de votação.
Um levantamento feito pela reportagem do jornal A Redação a partir dos registros do DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra candidatos a deputado estadual e federal, em Goiás, que escolheram identificações que vão muito além do tradicional nome e sobrenome.
Tem Zé do Caixão, Papacapim, Juarez Explosão, Foguinho, Rosangela Cheirosa, Macarrão do Esporte, Denice Patroa do Brasil, Chorão Caminhoneiro, Bola de Fogo Zero Meia Dois, Jadiel da Bronca, entre outras “pérolas” eleitorais.
A lista reúne ainda candidatos que levam para a urna profissões, patentes, referências religiosas, atividades comerciais e vínculos com comunidades ou regiões.
Marca eleitoral
Na eleição, tem candidato querendo ganhar voto. Em Goiás, tem candidato querendo também aterrorizar a concorrência.
É o caso de Zé do Caixão, numa referência direta ao icônico personagem dos filmes de terror. Só que, desta vez, o objetivo não é assustar o público, mas os adversários na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego).
Se depender do nome, Juarez Explosão também não pretende chegar à campanha fazendo pouco barulho. A ideia é entrar em cena com impacto e deixar a candidatura acesa. Já Foguinho parece apostar em outra fórmula: uma chama menor, mas que pode crescer ao longo da corrida eleitoral.
E se a disputa é por espaço, Jadiel da Bronca já avisa, desde o nome de urna, que não chegou para ficar calado. A “bronca” pode até estar no apelido, mas será na urna que o eleitor vai decidir se ela vira voto.
Entre os nomes curiosos, há ainda quem prefira conquistar o eleitor pelo olfato — ou, pelo menos, pela lembrança que fica depois. Rosangela Cheirosa tem a missão de não deixar passar batida a própria candidatura.
Se o nome cumprir o papel, a expectativa é deixar um bom cheiro na memória do eleitor e, quem sabe, ajudar na hora em que ele estiver diante da urna.
Já Simone Formiguinha aposta na conhecida imagem de quem trabalha muito, pouco a pouco, sem parar. Na política, pode ser uma boa metáfora para uma campanha construída voto a voto, bairro a bairro, até tentar chegar ao resultado desejado.
Barbara Bombom também já chega com uma identificação pronta para adoçar a campanha. E, se depender do nome, a candidatura de Rui Pipa parece disposta a ganhar altitude, enquanto Isael Pantera aposta na força e na imagem de um animal conhecido pela agilidade e pelo instinto.
Há ainda Suze Guerreira, que praticamente transforma o nome em declaração de disposição para a batalha eleitoral, e Zé Maria Xerife, que incorpora ao nome uma figura conhecida por representar autoridade e comando.
E tem Denice Patroa do Brasil. O nome é praticamente um slogan por conta própria. A candidata tenta transformar a identificação em uma mensagem de grandeza nacional, mas a disputa é bem mais concreta: conquistar votos suficientes para representar os mais de 7 milhões de goianos na Assembleia Legislativa.
No fim, alguns candidatos podem até não ter escolhido os nomes mais convencionais para aparecer na urna. Mas, pelo menos no quesito criatividade, já entraram na campanha com uma vantagem: antes mesmo de pedir o voto, já deram ao eleitor um motivo para parar e prestar atenção.
Profissões
A criatividade profissional não para nos apelidos. A lista tem radialista, cantor, contadora, corretora, terapeuta, profissional da segurança privada, caminhoneiro e motociclista entregador.
Há também quem leve para a urna a própria rotina de trabalho: oficina, ferragista, quiosque, salão, posto, lanchonete e outros estabelecimentos aparecem incorporados aos nomes.
E se a profissão é professor, nada mais natural do que tentar dar uma aula também na política. Professor, Professora e Prof. aparecem em dezenas de candidaturas.
São nomes que chegam à urna carregando o quadro-negro, a sala de aula e a experiência de quem passou boa parte da vida ensinando — agora, tentando convencer o eleitor a dar uma nota alta nas urnas.
Na saúde, a disputa também tem seus representantes. Tem Enfermeira, tem candidato da Saúde, da Enfermagem e até quem resolveu acumular funções no próprio nome. Professor Cleidomar Enfermeiro não deixou nenhuma das duas profissões para trás: leva a sala de aula e o hospital para a mesma linha da urna.
E quem vive da estrada também está representado. Chorão Caminhoneiro transforma o asfalto em parte da identidade eleitoral. Se passou boa parte da vida percorrendo quilômetros, agora a missão é fazer a candidatura percorrer o caminho até o voto.
Já Magrão da Rádio parece ter trocado o estúdio pelo palanque — ou, pelo menos, levado o estúdio junto. O microfone pode continuar sendo uma ferramenta importante, mas agora o desafio é fazer a voz chegar ao eleitor.
No comércio, a eleição ganha quase uma pequena rua comercial. Mara do Quiosque leva o balcão para a urna; Carlin da Oficina transforma a oficina em sobrenome; Galego da Ferragista carrega as ferramentas para a campanha; e Vanessa do Salão tenta fazer com que a identificação seja tão conhecida quanto o próprio estabelecimento.
E tem quem leve o produto junto. Baiano do Picolé parece pronto para refrescar a campanha; Mauro do Alho chega com um tempero próprio; Betinha da Laranja acrescenta sabor à lista; e Macarrão do Esporte talvez seja a combinação mais improvável do cardápio eleitoral: um nome de massa com uma vocação esportiva.
No fim, há candidatos que podem até não precisar explicar muito sobre o que fazem. O nome de urna já entrega a profissão, o local de trabalho ou até o produto pelo qual são conhecidos. E, na hora do voto, pode ser justamente essa lembrança do cotidiano que ajude o eleitor a encontrar o candidato na tel
Doutor, doutora e formalidades
Se alguns candidatos chegam com apelidos que parecem saídos de uma roda de amigos, outros preferem uma apresentação um pouco mais solene. Entre as candidaturas a deputado em Goiás, há quem faça questão de levar o “Dr.” ou “Dra.” para a tela da urna.
São pelo menos 15 candidatos a deputado que levam Dr. ou Dra. para a urna. E, como o título aparece entre diferentes candidaturas, o eleitor pode encontrar desde quem tenha trajetória ligada à medicina até quem atua no Direito ou em outras áreas profissionais. O tratamento, sozinho, não permite cravar a profissão de cada candidato.
É quase uma pequena disputa de consultório e escritório — mas sem jaleco ou terno na tela da urna. Ali, o “doutor” terá pouco tempo para convencer: depois do título vêm o nome, o número e a decisão do eleitor.
Patentes e cargos
Na segurança pública, o nome de urna também pode vir acompanhado de patente, cargo e função. Entre os candidatos a deputado estadual, são mais de 20 identificações que trazem referências como sargento, tenente, major, subtenente, cabo, policial e guarda civil.
E há uma curiosidade aí: para quem está acostumado a ser chamado pela patente, o posto acaba virando quase um sobrenome. É o caso de quem chega à eleição como Major, Sargento, Cabo ou Subtenente. Na vida profissional, o tratamento vem antes do nome; na urna, continua no mesmo lugar.
Entre os candidatos a deputado federal, a lista segue pela mesma linha, com “bombeira”, cabo, delegada, delegado e subtenente.
Da farda para o santinho, muda o cenário, mas alguns candidatos não abrem mão da forma como são conhecidos.
A fé no nome e na urna
Na corrida eleitoral, tem candidato que leva para a urna algo ainda mais pessoal: a fé. São mais de 15 candidatos que aparecem com referências como Pastor, Pastora, Missionária, Irmão, Irmã ou Padre no nome de urna.
E há quem faça questão de juntar a fé com aquilo que faz no dia a dia. Pastor ‘Camioneiro’, por exemplo, coloca o púlpito e a boleia na mesma identificação. É como se a candidatura dissesse que a missão pode continuar tanto na igreja quanto na estrada.
A combinação aparece também com outras profissões. Há quem leve para a urna a referência religiosa ao lado da atuação na saúde, misturando cuidado espiritual e cuidado com o corpo no mesmo nome.
Entre pastores que pregam, missionários que anunciam e irmãos que chegam para a disputa, a eleição ganha uma lista em que a fé não fica apenas no discurso de campanha. Ela aparece logo na primeira informação que o eleitor encontra.
“Do povo” e “da saúde”
Tem candidato que leva o povo no discurso. Outros resolveram colocar o povo no próprio nome. Juninho do Povão, Marquinho do Povo, Paulo Sérgio do Povo e Salomão do Povo parecem ter chegado à mesma conclusão: se é para pedir voto, melhor já avisar quem eles querem ter por perto.
E não é só o povo que ganhou sobrenome. Geraldo do Bairro Goiá levou o próprio endereço para a urna, enquanto Ulisses Líder Comunitário fez da atuação junto à comunidade parte da identificação. É como se um dissesse “sou daqui” e o outro completasse: “e conheço o pessoal daqui”.
Na saúde, a identificação também é direta. Eliane da Saúde e Elisa da Saúde já deixam o setor estampado no nome, enquanto Simone da Enfermagem não esconde de onde vem sua experiência profissional.
Regras
A liberdade para escolher uma identificação diferente não significa que o candidato possa registrar qualquer expressão.
A legislação eleitoral permite o uso de prenome, sobrenome, cognome, nome abreviado ou apelido pelo qual o candidato seja conhecido, desde que não haja dúvida sobre a identidade da pessoa.
Também existem limites para a escolha. O nome de urna não pode atentar contra o pudor nem ser considerado ridículo ou irreverente pela Justiça Eleitoral. Além disso, há um limite de 30 caracteres, incluindo os espaços, e outras restrições previstas na legislação eleitoral.
A regra está prevista no art. 12 da Lei nº 9.504/1997 e detalhada no art. 25 da Resolução-TSE nº 23.609/2019. Lei nº 9.504/1997 — Planalto Resolução-TSE nº 23.609/2019 — TSE
Ou seja: a criatividade é permitida, mas precisa caber dentro das regras eleitorais.
Acompanhe mais notícias em nosso site – Goiás no Ar
Esta matéria foi publicada originalmente no portal A Redação.
