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Bené e Cláudio ajudam a terra a escrever poemas para o céu

“As árvores são poemas que a terra escreve para o céu.” Este verso é do poeta e escritor Khalil Gibran. Foi dele que tomei emprestado o título desta...

“As árvores são poemas que a terra escreve para o céu.” Este verso é do poeta e escritor Khalil Gibran. Foi dele que tomei emprestado o título desta crônica, miúda como uma formiga-fantasma. Antes, porém, de apresentar Bené e Cláudio, peço licença para uma breve digressão. Sei que ela tem fama de desviar o caminho.
Como bem escreveu a poeta Ângela Lobo, amiga de muitas décadas, a digressão “tem o pé torto / alonga o caminho / quando poucos passos seriam suficientes”. Continuemos, então, por esse atalho. Ao falar de árvores, é impossível não me lembrar também de Manoel de Barros. Em seu poema Árvore, um passarinho pede ao irmão do bardo que se transforme numa árvore.
O pedido é aceito e, já “no estágio de árvore”, seu mano aprende “de sol, de céu e de lua mais do que na escola”. Aprende também, diz o poeta, “para santo”, mais do que os padres ensinavam no internato. A poesia apenas parece exagerar. Há lições que nenhum livro ensina. A lição da árvore ao irmão de Barros justifica isso.
É justamente entre árvores que trabalham Benedito Gomes da Silva Amorim, o Bené, e Cláudio Alves de Souza. Muito provavelmente você, altaneiro leitor, nunca ouviu falar deles. Seus nomes não estampam manchetes, não aparecem em listas de pessoas influentes, não acumulam milhões de seguidores nem despertam curiosidade nas redes sociais, principalmente na publicação de futilidades tão comuns nessa poluída praia virtual.
Eles são homens comuns, desses que passam despercebidos, pois vivem mais ocupados em fazer do que em aparecer.
Benedito Gomes da Silva (D) e Cláudio Alves de Souza são a dupla da Amma que faz os plantios de árvores nas calçadas |
Foto: Sinésio Dioliveira
Os dois integram o time da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), que joga melhor que a Seleção Brasileira, e exercem uma atividade cuja importância costuma ser percebida apenas muitos anos depois: plantam árvores nas calçadas dos moradores que solicitam esse serviço ao órgão.
A descrição parece simples. O trabalho, porém, está longe de ser. Antes que uma muda encontre seu lugar, é preciso avaliar o espaço disponível, escolher a espécie adequada e preparar um berço capaz de receber a árvore ainda pequenina. A avaliação é realizada por um técnico da Amma. Em muitas calçadas, a terra desapareceu sob uma camada espessa de concreto.
Há pedras, solo endurecido e o sol impiedoso, principalmente nos períodos de seca, nos quais já estamos. Cada plantio exige força, técnica e persistência. Vencidos, portanto, esses obstáculos, a muda finalmente entra na terra pelas mãos de Bené e Cláudio para ficar adulta e gerar inúmeros benefícios à cidade.
Com o passar dos anos, a árvore realiza o que nasceu para fazer: gerar sombra a quem caminha, flores a quem observa e também aos beija-flores e aos insetos, frutos aos animais (principalmente pássaros), abrigo para inúmeras formas de vida e temperatura mais amena às ruas. Suas raízes ajudam o solo a absorver a água das chuvas; sua copa ameniza a quentidão do asfalto e do concreto das calçadas.
Talvez Bené e Cláudio jamais vejam muitas dessas árvores adultas. Algumas só alcançarão sua plenitude quando eles já estiverem aposentados. Outras continuarão crescendo enquanto novas famílias ocuparão as casas diante das quais foram plantadas. Poucos moradores saberão quem abriu aquele berço na terra e plantou a árvore.
Muitos, movidos pela vaidade — “o pecado predileto do diabo”, como diz o personagem de Al Pacino no filme Advogado do Diabo — querem perpetuar o próprio nome. Bené e Cláudio preferem perpetuar sombras, flores, frutos e ninhos. A vaidade grava nomes na pedra; a generosidade planta árvores, as quais vão balançar ao vento (farfalhar), acolher ninhos, filtrar a luz do sol e oferecer sombra.
As marcas de Bené e Cláudio não pedem aplausos; pedem apenas o tempo necessário para se transformar em sombra.
Mas, para isso, precisam também das mãos do morador para regar e cuidar da muda plantada em sua porta, como quem adota um pequeno pet vegetal. (Sonho com o dia em que as árvores sejam tratadas com o mesmo carinho dedicado a cães e gatos.)
Há profissões que movimentam a economia, levantam edifícios, abrem estradas e produzem objetos.
O ofício de Bené e Cláudio trabalha em outra escala: cultiva, silenciosamente, o futuro ambiental da cidade. Talvez eles nunca escrevam um poema, mas, todos os dias, ajudam a terra a escrever alguns para o céu. Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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