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Especialistas alertam: seca não é a única responsável pela crise do Rio Meia Ponte

A entrada do Rio Meia Ponte em nível de alerta para criticidade hídrica reforça a necessidade de monitoramento nas próximas semanas, período para o qual ainda não há...

A entrada do Rio Meia Ponte em nível de alerta para criticidade hídrica reforça a necessidade de monitoramento nas próximas semanas, período para o qual ainda não há previsão de chuvas significativas. Especialistas ouvidos pelo Jornal Opção afirmam que Goiânia não corre risco de desabastecimento neste ano. No entanto, alertam que problemas estruturais e comportamentos recorrentes podem agravar a situação no futuro.
Eles também defendem que a cidade precisa repensar a forma como lida com a água, especialmente durante o período chuvoso, para aumentar a disponibilidade hídrica na estiagem.
O Jornal Opção entrevistou o gerente de Mudanças Climáticas da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), Gabriel Tenaglia; a vereadora Kátia Maria, coordenadora da Expedição Rio Meia Ponte; a presidente da Associação Guardiões do Meia Ponte, Patrícia Couto; e a professora de Química do IFG Itumbiara Juliana Moraes, responsável pelas análises químicas da Expedição Rio Meia Ponte.
Gabriel Tenaglia explica que, embora a estiagem ainda tenha um longo caminho pela frente, os indicadores atuais não apontam um cenário mais grave do que o registrado nos últimos anos.
“Mesmo entrando no estágio de alerta, ainda está acima dos anos anteriores. O cenário é de atenção mesmo, para que a gente possa agir caso chegue aos níveis críticos”, afirmou.
Segundo ele, a Deliberação nº 021/2022 do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Meia Ponte estabelece uma sequência de medidas conforme a vazão diminui. Antes que o abastecimento da população seja afetado, passam a ser impostas restrições graduais à captação de água por usuários com outorga, como produtores rurais e indústrias.
“Quando você estabelece esses níveis, vai tendo uma série de ações.
No nível crítico 2, por exemplo, quem tem autorização para captar água já reduz em 25% a retirada. Depois essa redução aumenta até chegar aos níveis mais restritivos”, explicou. Enquanto o rio permanece em nível de alerta, as ações concentram-se no monitoramento da vazão, campanhas de conscientização, orientação aos usuários e intensificação da fiscalização.
As restrições obrigatórias de captação só entram em vigor caso a vazão atinja os níveis críticos definidos pelo comitê. Rio Meia Ponte, em Goiânia | Foto: Reprodução
Para a vereadora Kátia Maria, a redução da vazão não pode ser analisada apenas sob a perspectiva da falta de chuva.
“O que mais me preocupa é que a gente ainda trate o Rio Meia Ponte como um problema que só aparece durante a estiagem.
A redução da vazão é um sinal de alerta muito importante, mas ela é consequência de um processo de degradação que vem acontecendo há muitos anos”, afirmou. Segundo a parlamentar, as expedições realizadas desde 2023 identificaram dezenas de pontos de assoreamento, erosão e descarte irregular de resíduos ao longo da bacia.
Para ela, a recuperação das nascentes, das matas ciliares e dos afluentes precisa ocorrer de forma permanente.
“Não podemos esperar chegar a uma situação extrema para tomar providências. Precisamos cuidar do rio durante todo o ano, porque a água que teremos na estiagem é resultado da forma como protegemos a bacia nos períodos de chuva”, disse.
A professora de Química do IFG Itumbiara, Juliana Moraes, que participa da Expedição Rio Meia Ponte desde 2023 realizando análises físico-químicas da água, afirma que um dos principais problemas identificados nas coletas é o lançamento irregular de efluentes e resíduos sólidos ao longo da bacia.
Segundo ela, embora tenham sido observados avanços no tratamento de esgoto, ainda há um longo caminho para recuperar a qualidade do rio.
“Nós percebemos um grande índice de lançamentos de efluente bruto, de forma clandestina, seja de origem industrial ou domiciliar.
Também observamos melhorias no tratamento da Estação Hélio Seixas de Brito, com a implantação do tratamento secundário, mas ainda precisamos avançar muito”, afirmou. De acordo com a pesquisadora, o excesso de carga orgânica reduz a oxigenação da água e compromete a vida aquática.
Ela explica que a alta demanda química de oxigênio (DQO) diminui a quantidade de oxigênio dissolvido no rio, podendo provocar episódios de mortandade de peixes.
“Quando a DQO é elevada, o oxigênio dissolvido diminui. Sem oxigênio, os animais aquáticos tendem a morrer”, explicou.
Para Juliana, a recuperação do Meia Ponte depende tanto da ampliação da fiscalização sobre lançamentos irregulares quanto da melhoria contínua do tratamento de efluentes públicos e privados. A presidente da Associação Guardiões do Meia Ponte, Patrícia Couto, avalia que a crise hídrica vai além da estiagem e passa pela forma como as cidades são planejadas.
“A drenagem urbana tradicional transforma a chuva em problema.
A água que deveria infiltrar e abastecer os lençóis freáticos é canalizada e expulsa da cidade em poucas horas. Isso reduz a recarga das nascentes, diminui a vazão dos rios no período seco e agrava a crise hídrica”, afirmou.
Como alternativa, ela cita o conceito das chamadas cidades-esponja, modelo urbano que busca ampliar a infiltração da água da chuva por meio de jardins drenantes, pavimentos permeáveis, parques alagáveis e recuperação de áreas verdes.
“Precisamos substituir esse modelo pelo conceito de cidades-esponja. A melhor barragem é o solo vivo”, defendeu.
Embora ainda seja pouco aplicado no Brasil, o conceito vem sendo adotado em diferentes países como estratégia de adaptação às mudanças climáticas. A proposta não substitui as ações emergenciais previstas para períodos de estiagem, mas busca ampliar, ao longo dos anos, a infiltração da água no solo, reduzindo tanto as enchentes quanto a perda de vazão dos rios durante a seca.
Com a previsão de continuidade da estiagem nas próximas semanas, Gabriel Tenaglia ressalta que a população também tem papel importante na preservação dos mananciais.
“A população precisa compreender que ela é parte da solução. É importante usar a água de forma consciente, evitar desperdícios e não utilizar água tratada para lavar calçadas ou veículos”, orientou.
Enquanto o Rio Meia Ponte permanece em nível de alerta, a expectativa é de acompanhamento diário da vazão pelos órgãos responsáveis.
Para os entrevistados, a combinação entre monitoramento, preservação ambiental, planejamento urbano e consumo consciente será fundamental para atravessar o restante do período seco sem a necessidade de adoção das medidas mais restritivas previstas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Meia Ponte.
Leia mais: Após 32 dias sem chuva, Rio Meia Ponte entra em nível de alerta; abastecimento em Goiânia segue normal
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